ALIMENTAÇÃO NA GESTAÇÃO SEGUNDO A MEDICINA AYURVÉDICA


De acordo com o Ayurveda a saúde é o resultado da integração corpo-mente-espírito. Os sinais de saúde de acordo com a medicina tradicional indiana, inclui, entre tantos outros, um apetite e um desejo equilibrado por alimentos sãos, isento de vontades extremas, uma apreciação pelo sabor dos alimentos, uma boa digestão e eliminação das fezes, urina e suor. Nesse sentido, podemos considerar o nosso corpo como um templo aqui na terra e o ato de se alimentar como uma oração. Quando seguimos esses preceitos, gozamos de mais entusiasmo pela vida, mais energia e vigor, e, consequentemente, nossas emoções serão mais equilibradas, nosso sono de maior qualidade, nosso humor mais positivo e nossos sentidos mais aguçados.

Durante a gestação alimentar-se bem é de extrema importância, uma vez que a demanda energética e nutricional deve doravante suprir a mamãe e o bebê em desenvolvimento. A ayurveda possui uma especialidade totalmente destinada a todo o período pré-gestacional, gestacional e pós-gestacional, contida no Prasoothi Tantra, dividindo-se em três partes: Garbhini Paracharya, com avaliação do estado da gravidez e recomendações de como se alimentar, massagens, ingestão de ervas, rotina diária, exercícios; Prasava Kaala Paricharya, que traz recomendações de como proceder com as dores durante o trabalho de parto, do nascimento do bebê e até a expulsão da placenta; Soothika Paricharya, que trata dos cuidados pós-natais com a mãe e o bebê.

Nesse artigo trataremos especificamente das recomendações da medicina ayurvédica durante a gestação que tange a alimentação.

Antes de comentar os alimentos preconizados durante a gestação, gostaria de evocar o conceito de gunas, energias presentes na natureza que influenciam a nossa mente. Os três gunas são: Sattva, Rajas e Tamas. Sattva é energia de luz, é sutil e traz virtudes como benevolência, sabedoria, generosidade e honestidade. Doce é o sabor sátwico por excelência, que é nutritivo e calmante. Rajas é energia do movimento, gera emoções contraditórias, como amor e ódio, aversão e apego. Cria instabilidade, agitação e impaciência. Alimento rajásicos são estimulantes e como exemplo temos o café, chá e chocolate, ou os alimentos de sabor picante, ácido e/ou muito salgado, como alho, cebola, vinagre, vinho, feijão. Tamas é a energia da escuridão, inércia e destruição. A mente onde predomina essa energia é carregada, obtusa. Cria inércia, apatia, estagnação e dependência emocional. Exemplos de alimentos tamásicos são os processados, congelados, conservas, carne, peixe, cogumelos, açúcar, farinhas refinadas e álcool.

Ao considerarmos a energia de los alimentos sob esse olhar, parece natural que durante o período gestacional o ayurveda preconize uma alimentação nutritiva e sátwica, predominantemente doce. A grávida deve consumir frutas, verduras, hortaliças frescas, ricas em vitalidade (prana). Todos os cereais como arroz, trigo, aveia, milho, cevada, centeio, grão de bico, nozes e castanhas podem ser consumidos abundantemente.

É comum também que a grávida se sinta atraída por alimentos ácidos. O sabor ácido das frutas, compostas pelos elementos terra e fogo, podem ser consumidos a vontade durante a gestação, uma vez que estes elementos são de extrema importância para a formação do dathus (tecidos) dos bebês, principalmente nos 4 primeiros meses.

Antes de prosseguir com as recomendações, faço um parêntese para comentar o conceito de doshas da medicina ayurvédica. Dosha é uma palavra sânscrita que se traduz por culpa ou transgressão, porém, em um contexto de cuidado à saúde é mais correto o entendimento desse conceito como “forças, no corpo, que mais facilmente se desequilibram”. Os doshas possibilitam, de acordo com a milenar Medicina Ayruvédica, caracterizar o perfil biológico do indivíduo. Em proporções variadas, todos possuímos os três doshas, vata, pitta e kapha, cada qual com suas características determinantes. Restabelecer o equilíbrio original dos doshas é possível por meio de dietas, exercícios físicos, uso de plantas medicinais, meditação, yoga e massagem.

- Vata: força que gera, possui as qualidades do ar e quando em excesso produz gás; este dosha é formado pelos elementos ar e éter, cujas características são seco, leve e frio. Indivíduos Vatta são geralmente magros, ativos, de pele seca e podem apresentar constipação intestinal. Devem evitar alimentos amargos, bem como clima frio e seco.

- Pitta: força que gera, possui qualidades do fogo e quando em excesso produz bile e ácido; este dosha é formado pelos elementos fogo e água, cujas características são quente, oleoso e leve. Indivíduos Pitta são ativos e com boa conformação física, de tendência nervosa e facilmente irritáveis. Devem evitar alimentos salgados e picantes, para evitar estimular o fogo digestivo.

- Kapha: força que gera, possui a qualidade da água (e terra) e quando em excesso produz muco. Este dosha é formado pelos elementos água e terra, cujas as características são úmido, pesado e frio. Indivíduos Kapha são predominantemente grandes, frios e pesados e tendem a obesidade. Devem evitar alimentos úmidos, frios e pesados, como massa e arroz.

O equilíbrio dos doshas pode ser controlado através dos 6 sabores – salgado, picante, adstringente, amargo, doce e azedo -, os quais podem agravar ou pacificar os diferentes doshas.

Durante a gestação, alimentos intensamente picantes devem ser evitados, uma vez que aumentam o dosha Pitta (fogo) e podem causar desordens ligadas ao sangramento. Recomenda-se também evitar alimentos de sabor muito salgado e frituras, principalmente entre o sétimo é o oitavo mês.

Outra recomendação importante é atentar para a pacificação da energia Vata, reduzindo o sabor amargo presente no chá, chá preto e erva mate e temperando bem as leguminosas (cominho, coentro e assafétida) para evitar a formação de gases.

Todos os preparados ayurvédicos para o período gestacional incluem ghee, leite e mel, alimentos que conferem força para a mulher e nutrição para o bebê. O ghee e o iogurte são alimentos que auxiliam na lubrificação interna do corpo, e, por essa razão, podem facilitar o passagem do bebê durante o parto. Em contrapartida, alimentos que tendem a travar as articulações, como o queijo, devem ser evitados.

Ervas tonificantes de sabor doce podem fortalecer a mulher durante a gestação, como por exemplo a Shavatari (aspargos rancemosus), que é fortemente recomendada tanto para o período gestacional como durante a amamentação. Essa erva nutre, tonifica e protege todo o sistema reprodutivo feminino, além de aumentar a libido e estimular a lactação. Os chás devem ser consumidos com cautela: as ervas amargas são desaconselhadas e recomenda-se de preferência chás florais como hibisco, calêndula, rosa, camomila e jasmim e/ou ervas de sabor leve e doce como a erva-doce, alfavaca, anis estrelado e mil folhas. Ervas calmantes para aliviar ansiedade e acalmar a mente, como a cidreira, capim limão e o cartagegus, devem ser consumidos esporadicamente e em menor proporção (1/2 colher de sopa de erva fresca).

Abuse de alimentos sátvicos como água de coco, suco de uva, suco verde, frutas frescas, frutas secas, saladas vivas e brotos germinados, sementes oleaginosas, raízes e tubérculos, óleos vegetais puros e prensados a frio (nunca aquecidos). Evite o excesso dos alimentos muito rajásicos e/ou tamásicos como industrializados, frituras, álcool e açúcar refinado, carne, alho e cebola etc.

Além dessa recomendações, a Medicina ayurveda desaconselha jejuns prolongados durante a gestação. Deve-se, ao contrário, aumentar o número de refeições, diminuindo as quantidades e aumentando a qualidade dos alimentos consumidos.


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