Yoga Energético I: Prana Vayus


“Aquele que possui o conhecimento sobre os vayus é um yogui no sentido verdadeiro”. Yoga -Chudamani-Upanisad

“Enquanto o prana se move, citta (a força mental) se move Quando o prana se aquieta, a mente se aquieta”. Hatha-Yoga-Pradipika

“Pois a mente ó Krsna é inquieta, turbulenta, obstinada e muito forte e subjugá-la é, assim me parece, mais difícil que controlar o vento (vayu). Bhagavad-Gita

A prática de Hatha Yoga, muito além de promover flexibilidade e força, permite, entre outros, controlar o Prana, a força vital que nos mantém vivos e saudáveis. Essa força vital permite que o corpo se movimente e que a mente se purifique. Ela é a inteligência que coordena nossos sentidos e nos permite em um primeiro estágio vislumbrar a manifestação do nosso Eu maior. Ao nos tornarmos mais atentos ao nosso Prana – acentuando e direcionando seu fluxo através da prática de yoga – é possível revigorar o corpo e a mente.

Os antigos yoguis, os rishis, já sabiam disso. Passavam uma vida inteira dedicados a busca da consciência. Interessava-lhes desvendar o infinito, para o qual o declínio e a morte não existem. Sabiam que ao esgotarmos toda nossa energia, o mundo finito perece e o que deve ser capturado, de fato, é sua fonte, pois nela reside a habilidade de compreender ambos, o finito e infinito.

Antes de falarmos do Prana propriamente dito, faço um parêntese para evocar os Koshas, os invólucros que envolvem o corpo físico. De acordo com a ciência do Yoga existem cinco Koshas ou bainhas: Annamaykosha, Pranamayakosha, ManomayaKosha, VijnanamayaKosha e Anandamaya Kosha. Partimos sempre do corpo físico até chegarmos as camadas mais sutis.

Podemos comparar os koshas com vidros sobrepostos e cuja poeira neles acumulada nada mais são do que a soma das diferentes impressões das situações vividas durante nossa existência. Para purificarmos os vários invólucros e moldes é preciso observação e autoconhecimento. O rishis acreditavam que a purificação dessas camadas nos permite acessar o Ser ilimitado que somos. Por causa da nossa bagagem karmica, carregada de vãsanas e samskaras, não conseguimos acessar a nossa natureza, que já é plena em si. Esses samskaras e vasãnas nada mais são que nossos desejos, que têm como base a ignorância em relação a nossa verdadeira natureza.

O mestre Śri Śaṅkarāchārya em sua obra Tattvabodhaḥ, discorre sobre esse processo de purificação dos Koshas como um processo (des) identificação, e o condensa de forma bela e simples nessa frase:

“Assim como um bracelete, um brinco, uma casa, etc. são reconhecidos como “meus”, e portanto, diferentes de Mim. Assim também é aquilo que é composto pelos cinco kośas. Reconhecidos como “meus”: meu corpo, meus sentidos, minha mente, meu intelecto e minha ignorância. Todos eles não sou Eu, o ātmā.”

Ao considerarmos a prática de asanas, chamadas também de posturas psico-fisícas, a partir de uma abordagem multifacetada e regida por princípios ligados a cada um dos Koshas, ela se torna uma ferramenta poderosíssima para acessar os portais para o autoconhecimento.

De forma resumida, podemos relacionar ao Annamayakosha (substrato para os Koshas sutis), os princípios com foco na dimensão física, incluindo os alinhamentos; ao PranamayaKosha (corpo energético), princípios com foco na dimensão energética (nadis, pranavayus e chakras); ao Manomayakosha (assento do conhecimento empírico), princípios com foco na dimensão psicoemocional; ao Vijnanamayakosha (camada de intuição), princípios com foco na dimensão de transformação psico-espiritual; e AnandamayaKosha (ou bem aventurança) princípios com foco na dimensão espiritual.

No processo de evolução espiritual devemos nos aprofundar e purificar os Koshas, sempre do mais denso até o mais sútil. É necessário nos liberarmos das limitações (a poeira) impostas pelos cinco Koshas, pois são elas que nos impedem de alcançar (enxergar) o corpo de plenitude e felicidade, responsável pela união da consciência individual com a Consciência Cósmica.

Dentre esses cinco corpos ou invólucros, é o corpo de energia ou PranamayaKosha que nos interessa nesse artigo. O Prana, composto pelos Pranas Vayus, 5 no total, é o que sustenta este Kosha e existe como luz energia, podendo ser absorvido e utilizada pelos outros corpos. Este corpo abriga também os chamados Nadis (ou meridianos, base da acupuntura), que ao cruzar-se dão origem aos Chakras.

PranamayaKosha é portanto nosso corpo energético, o qual em lugar de alimento é constituído de Prana ou energia. Você pode supor que seu corpo é envolvido por este campo de Prana e que este Prana segue você aonde quer que você vá. Ao explorar o corpo e a respiração, os rishis descobriram que o PranamayaKosha podia ser subdivido em componentes energéticos chamados de Vayus.

Os cinco vayus ou pranas possuem qualidades energéticas distintas, segundo suas funções e fluxos dentro do corpo. Esses yoguis estavam aptos a controlar e potencializar esses Vayus apenas focalizando e trazendo a consciência para eles. Além de se manterem saudáveis e gozarem de bem estar, esse controle sobre os Vayus lhes permitia ativar também a energia primordial, chamada Kundalini, e assim alcançar a iluminação, Samadhi.

OS CINCO VAYUS

O Yoga tradicionalmente descreve cinco movimentos ou funções do prana conhecidos como vayus (que significa vento, literalmente) – apana vayu, samana vayu, prana vayu, udana vayu e vyana vayu, que se concentram em diferentes partes do corpo e da mente:

- Apana vayu se situa no assoalho pélvico, parte interior do abdômen. É a energia que regula os órgãos digestivos (eliminação do dióxido de carbono na respiração, menstruação e nascimento), de reprodução e excreção (sêmen, urina e fezes). Apana vayu é responsável pelo bom funcionamento do sistema imunológico. No nível sutil, controla a expulsão das experiências negativas, emocionais e mentais. Seu movimento é para baixo e para fora.

Para vivenciar Apana-Vayu: Feche os olhos, sentado ou em pé, com a coluna ereta e o corpo relaxado, ao exalar sinta a energia descendente do topo da cabeça até o dedão do pé.

- Samana Vayu se situa no abdômen e sua energia se concentra no umbigo. Significa literalmente, força que equilibra. O fluxo de Samana vayu é circular e se move da periferia para o centro do corpo, entre prana e apana. Governa a digestão e a assimilação de substâncias: alimentos, ar, experiências, emoções e pensamentos.

Para vivenciar Samana vayu: feche os olhos, sentado ou em pé, com a coluna ereta e o corpo relaxado, ao inalar e exalar sinta a respiração subindo e descendo nas partes anterior, lateral e posterior do tronco.

- Prana Vayu Sua energia se situa na região torácica, entre o umbigo e a garganta. Regula todos os processos de absorção: o movimento inspiratório, a assimilação de alimentos sólidos e líquidos e a recepção das impressões sensoriais. É a força que se move para frente, tendo por finalidade colocar as coisas em movimento.

Para vivenciar o Prana-Vayu : feche os olhos, sentado ou em pé, com a coluna ereta e o corpo relaxado; ao inalar sinta a energia fluindo do ventre, passando pelo peito e alcançando o terceiro olho.

- Udana Vayu se situa na garganta e flui em círculos em volta do pescoço e da cabeça e regula a distribuição da energia na região do pescoço. Sua função é nos manter em pé, governa a palavra, a auto-expressividade e o crescimento. No plano sutil, regula os movimentos de transformação positiva e evolução.

Para vivenciar Udana Vayu, feche os olhos, sentado ou em pé, com a espinha ereta e o corpo relaxado, ao inalar e exalar sinta a respiração circulando em volta e através da cabeça e pescoço.

- Vyana Vayu se situa no coração e nos pulmões e se movimenta do centro para a periferia, entre os troncos e os membros. É força que se move para fora, literalmente. Controla a circulação de todas as substâncias que circulam e ajuda os outros vayus em suas respectivas funções. No nível sutil, controla os sentimentos e pensamentos do psiquismo e administra nossa força de vontade.

Para vivenciar Vyana Vayu, feche os olhos, sentado ou em pé com a coluna ereta e o corpo relaxado, ao inalar sinta a respiração irradiar do centro do umbigo em direção as pernas e braços.

OS PRANAS VAYUS NA PRÁTICA

Acredita-se que o prana foi o responsável pela criação das primeiras posturas de yoga. Essa energia universal e inteligente que chamamos de Prana – responsável pela criação das montanhas, do mar e das estações – é também responsável pelo nosso bem-estar físico e emocional, e o seu desequilíbrio, como vimos, compromete a integridade do corpo.

Se pensarmos no corpo de forma mecânica, podemos dizer que o prana é o responsável pela absorção do combustível enquanto que samana é responsável pela transformação desse combustível em energia, que, por sua vez, circula em nosso organismo graças à Vyana. Apana expulsa os detritos e Udana coordena a energia positiva resultante do processo e também determina o que nosso corpo é capaz de fazer.

Por isso, na prática de Yoga que ensino e pratico, procuro integrar e sensibilizar meus alunos aos movimentos e as diferentes direções de pranas que atuam nas posturas de yoga. Os asanas funcionam como ferramentas poderosas para desbloquear os prana vayus, e estes, por sua vez, facilitam a abertura das posturas de yoga, proporcionando mais estabilidade e conforto dentro dos asanas. Desse modo, a prática das posturas psico-físicas conhecidas como asanas agem não somente num nível físico, mas também mental e espiritual.

Vejamos o exemplo de duas posturas: